Tumores caninos mais frequentes - Uma abordagem racial em um estudo retrospectivo de 10 anos.
05 de Maio, 2022
O cancro é uma doença comum em cães e representa uma das principais causas de mortalidade canina. Animais sem raça definida e de raça pura podem ser afetados (Komazawa et al., 2016). Embora a etiologia da maioria dos tumores seja provavelmente de origem multifatorial, algumas raças de cães com pedigree aparentam ter um maior risco para determinado tipo de tumores (Dobson, 2013; Grüntzig et al., 2016). Neste trabalho, o nosso objetivo foi determinar quais os tumores mais frequentes nas diferentes raças de cães existentes em Portugal.
Este estudo preliminar trata-se de uma pesquisa retrospetiva e descritiva que se baseou nos registos de 10 anos de diagnóstico de tumores em cães fornecidos pelo Laboratório INNO. Os dados recolhidos incluíram os registos de diagnóstico de amostras produzidas por dois métodos de diagnóstico diferente: o exame post mortem e a biópsia, todas derivadas de exames microscópico. Apenas a informação relacionada com a raça e a localização do tumor nos diferentes órgãos foram utilizadas. A classificação do tumor foi baseada na Classificação Internacional da OMS de Tumores de Animais Domésticos em 17 categorias diferentes (Meuten, 2017). Os tumores incluídos neste estudo tiveram origem na pele, tecidos moles, ossos, articulações, músculo, aparelho digestivo, glândulas endócrinas, olhos, aparelho genital, aparelho hemolinfático, fígado e vesícula biliar, glândula mamária, sistema nervoso, aparelho respiratório e aparelho urinário.
Foram analisados no total 10781 cães diagnosticados com cancro, de 88 raças diferentes. As raças predominantes foram: cães de raça não definida (4291, 39.8%), labrador retriever (1010, 9.4%), cocker spaniel inglês (469, 4.4%), pastor alemão (365, 3.4%), husky siberiano (276, 2.6%), yorkshire terrier (277, 2.6%), golden retriever (274, 2.5%), pinscher miniatura (131, 1.2%) e o pitbull terrier americano (116, 1.1%).
Nos cães de raça não definida, 32.6% (n=1398) dos tumores tiveram origem na glândula mamária e 21.3% (n=912) eram tumores epiteliais e melanocíticos da pele. Nos huskies siberianos 31.9% (n=88) eram tumores epiteliais e melanocíticos da pele e 24.6% (n=68) tumores da glândula mamária. No yorkshire terrier 21.3% (n=59) eram tumores epiteliais e melaníticos da pele e 44.4% (n=123) tumores da glândula mamária. O cocker spaniel inglês observou-se que 32.9% (n=154) eram tumores da glândula mamária e 27.3% (n=128) tumores epiteliais e melanocíticos da pele. No pastor alemão 35.1% (n=128) dos tumores eram da glândula mamária e 25.2% (n=92) tumores epiteliais e melanocíticos da pele. No golden retriever 27.4% (n=75) dos tumores eram epiteliais e melanocíticos da pele e 16.4% (n=45) da glândula mamária. No labrador retriever 23.0% (n=232) dos tumores eram epiteliais e melanocíticos da pele e 20.7% (n=209) tumores mesenquimatosos da pele e tecidos moles.
Neste trabalho podemos observar que os tumores epiteliais e melanocíticos da pele são os predominantes, seguidos de tumores mesenquimatosos da pele e tecidos moles e glândula mamária. Poucos estudos desta magnitude foram publicados, fazendo deste trabalho uma importante contribuição para a epidemiologia de tumores caninos. Para além disso, os resultados apresentados podem também ser uma contribuição para o campo da oncologia comparada.
1 - Anfinsen KP, Grotmol T, Bruland OS, Jonasdottir TJ. Breed-specific incidence rates of canine primary bone tumors - a population based survey of dogs in Norway. Can J Vet Res 2011;75:209–15.
2 - Dobson JM. Breed-Predispositions to Cancer in Pedigree Dogs. ISRN Vet Sci 2013;2013:1–23.
3 - Grüntzig K, Graf R, Boo G, Guscetti F, Hässig M, Axhausen KW, et al. Swiss Canine Cancer Registry 1955–2008: Occurrence of the Most Common Tumour Diagnoses and Influence of Age, Breed, Body Size, Sex and Neutering Status on Tumour Development. J Comp Pathol 2016;155:156–70.
4 - Komazawa S, Sakai H, Itoh Y, Kawabe M, Murakami M, Mori T, et al. Canine tumor development and crude incidence of tumors by breed based on domestic dogs in Gifu prefecture. J Vet Med Sci 2016;78:1269–75.
5 - Meuten D, editor. Tumors in domestic animals. 5th edition. Ames, Iowa: John Wiley & Sons Inc; 2017.
Andreia Garcês
A Doutora Andreia Garcês terminou o Mestrado Integrado em Medicina Veterinária pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) em 2016 com a dissertação de mestrado intitulada de “Necropsias em animais Selvagens”. Realizou diversos estágios curriculares em Centros de Recuperação de Animais Selvagens em Espanha e Portugal, Zoos, Laboratórios e Hospitais Veterinários. A sua tese de dissertação foi considerada a melhor tese de Mestrado na área da Patologia Animal pela Sociedade Portuguesa de Patologia Animal (SPPA) em 2016.
No período de 2016-2017 colaborou em um projeto de investigação do Laboratório de Microbiologia da UTAD sobre o tema “Caracterização genómica e proteómica da resistência a antibióticos em bactérias de morcegos (Tardarida teniotis) e suas implicações ecológicas”, sob a orientação da Profª Drª Patrícia Poeta.
Em 2017, ganhou uma Bolsa de Investigação para Mestres e ingressou no Doutoramento de Ciências Veterinárias na UTAD. A tese de Doutoramento foi defendida em 2020 sob a orientação da Prof. Drª Isabel Pires com o tema “The Impact of Anthropogenic Pressures on the Mortality of Wild Animals in Northern Portugal: A Contribute to Wild Fauna Preser-vation”. Em janeiro de 2020, iniciou a sua atividade no Laboratório INNO como Responsável do Serviço de Microbiologia.
Desde 2021 é também professora assistente convidada da Unidade Curricular Microbiologia Geral e Microbiologia Veterinária no Mestrado Integrado em Medicina Veterinária.
É membro cofundador do grupo de estudantes Griffus-UTAD (2013-2015). Membro da Wildlife Disease Association desde 2018, tendo sido representante por Portugal na Euro-pean Wildlife Disease Association Student Chapter no período de 2018-2020. Embaixa-dora da Antimicrobial resistance (AMR) Insights Ambassador Network (2021- atualidade). Membro ativo da Ordem dos Médicos Veterinários desde 2017. E, desde março 2021, faz parte da Comissão Científica da INNO.
No que diz respeito à produção científica, tem publicados mais de 30 artigos em revistas SCI e Scopus, 2 livros e diversos capítulos de livros. Tem cerca de 65 comunicações e posters em reuniões científicas internacionais e nacionais. Tem vários trabalhos em revistas não técnico-científicas e educacionais. Recebeu 5 prémios. Revisou inúmeros manuscritos para diversas revistas científicas e atuou como Editora Assistente no Journal Para-sitology Research.
Tem formação em ilustração científica de natureza com trabalhos exibidos em exposições nacionais e ibéricas, publicações científicas e uma parceria com CRAS-UTAD (Vila Real) em 2016 na pintura de uma prótese de uma carapaça de um cagado de orelhas-vermelhas (Trachemys scripta).
As suas principais áreas de interesse são: Microbiologia, Micologia, Patologia, Toxicologia, Zoonoses e Doenças Infeciosas.