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Padrões de resistência antimicrobiana de bactérias isoladas exsudados auriculares de animais de companhia em Portugal.

04 de Maio, 2022

A otite externa é uma das doenças mais comuns em animais de companhia, em particular nos cães [1]. O seu diagnóstico é feito com base na história do animal, exame otoscópico da membrana timpânica e sinais clínicos como eritema, edema, odor fétido e prurido. É uma doença de etiologia multifatorial, sendo as leveduras e bactérias a principal etiologia [2,3]. Citologia, cultura microbiológica e testes de suscetibilidade antibacteriana são necessários para um correto diagnóstico e tratamento.

Foram analisadas todas as culturas microbiológicas de exsudados auriculares de cães e gatos submetidas ao Laboratório Veterinário INNO entre janeiro de 2017 e dezembro de 2019. Apenas os isolados positivos com crescimento bacteriano foram selecionados.

Um total de 2715 amostras tiveram resultado positivo para crescimento bacteriano. Das amostras positivas, 76,6% eram culturas puras e 23,4% mistas. No total, 3544 agentes foram isolados.

Os animais com infeção eram na sua maioria machos (56%). A classe de idade mais afetada foi entre 6-11 anos (34,8%), seguido dos animais jovens com 0-5 anos (29%). As raças de cães mais afetadas por otite foram o Golden Retriver (n=540), animais sem raça definida (SDR) (n=484) e buldogue francês/inglês (n=228). A raças de gato mais afetadas foram o europeu comum (n=125) e o persa (n=26). Estes resultados seguem em linha com o que encontra descrito na bibliografia em que os cães de raças com orelhas pendulares, hipertricose e excesso de humidade possuem predisposição para desenvolverem otite externa [2]

O principal agente etiológico isolado foi a Staphylococcus pseudointermedius (29,7%, n=1027), seguido da Pseudomonas aeruginosa (14,6%, n=506). Dos 1027 S. pseudintermedius e 121 S. aureus isolados, foi observado que 9% (44 em 503 testados para oxacilina) são S. pseudintermedius resistente à meticilina (MRSP), e 6% (3 em 51 testados para oxacilina) são S. aureus resistente à meticilina (MRSA). Cerca de 26% das S. aureus e 17 % S. pseudintermedius eram MDR. No caso de Pseudomonas aeruginosa 17 apresentavam resistência a carbapenemes., e 277 eram MDR (54,7%).

Relativamente à sensibilidade antimicrobiana, observamos que existe um predomínio de resistência aos antibióticos da categoria D. Na categoria D, inserem-se as classes de antibióticos utilizados como primeira linha de tratamento, como penicilinas, tetraciclinas, sulfonamidas entre outros [4]. Ao longo dos três anos de estudo foi possível observar que tem vindo a aumentar a resistência a antibióticos da categoria C. A utilização de antibióticos desta categoria deve ser feita com cuidado e limitada a situações em que não há alternativas da categoria D. Na categoria B e A para o período de estudo parece que tem vindo a diminuir o número de resistências, que é uma tendência que se deve tentar manter, uma vez que nestas duas categorias estão incluídas classes de antibióticos que são importante para medicina humana e alguns cujo uso é proibido em animais [4].

Os resultados obtidos neste estudo mostraram que em Portugal as otites de origem bacteriana seguem a mesma tendência que em outros países [1,2,5] e ajudam a compreender a situação a nível nacional, onde os estudos nesta área são quase inexistentes. Para além disso, realçam a importância de uma avaliação clínica individualizada nos quadros de otite externa e média em pequenos animais, reforçando a importância da realização de exame microbiológico e antibiograma como forma de selecionar o tratamento mais adequado e combater o aumento de bactérias multirresistentes.


1 - Colombini S, Merchant SR, Hosgood G. Microbial flora and antimicrobial susceptibility patterns from dogs with otitis media. Vet Dermatol. 2000;11(4):235–9.

2 - Almeida MDS, Santos SB, Mota ADR, Da Silva LTR, Silva LBG, Mota RA. Isolamento microbiológico do canal auditivo de cães saudáveis e com otite externa na região metropolitana de Recife, Pernambuco. Pesqui Vet Bras. 2016;36(1):29–32.

3 - Oliveira LC, Brilhante RSN, Cunha AMS, Carvalho CBM. Perfil de isolamento microbiano em cães com otite média e externa associadas. Arq Bras Med Vet e Zootec. 2006;58(6):1009–17.

4 - Categorisation of antibiotics used in animals promotes responsible use to protect public and animal health | European Medicines Agency [Internet]. [cited 2020 Mar 2]. Available from: https://www.ema.europa.eu/en/news/categorisation-antibiotics-used-animals-promotes-responsible-use-protect-public-animal-health

5 - De Martino L, Nocera FP, Mallardo K, Nizza S, Masturzo E, Fiorito F, et al. An update on microbiological causes of canine otitis externa in Campania Region, Italy. Asian Pac J Trop Biomed [Internet]. 2016;6(5):384–9. Available from: http://dx.doi.org/10.1016/j.apjtb.2015.11.012


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Andreia Garcês

A Doutora Andreia Garcês terminou o Mestrado Integrado em Medicina Veterinária pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) em 2016 com a dissertação de mestrado intitulada de “Necropsias em animais Selvagens”. Realizou diversos estágios curriculares em Centros de Recuperação de Animais Selvagens em Espanha e Portugal, Zoos, Laboratórios e Hospitais Veterinários. A sua tese de dissertação foi considerada a melhor tese de Mestrado na área da Patologia Animal pela Sociedade Portuguesa de Patologia Animal (SPPA) em 2016. 

No período de 2016-2017 colaborou em um projeto de investigação do Laboratório de Microbiologia da UTAD sobre o tema “Caracterização genómica e proteómica da resistência a antibióticos em bactérias de morcegos (Tardarida teniotis) e suas implicações ecológicas”, sob a orientação da Profª Drª Patrícia Poeta.

Em 2017, ganhou uma Bolsa de Investigação para Mestres e ingressou no Doutoramento de Ciências Veterinárias na UTAD. A tese de Doutoramento foi defendida em 2020 sob a orientação da Prof. Drª Isabel Pires com o tema “The Impact of Anthropogenic Pressures on the Mortality of Wild Animals in Northern Portugal: A Contribute to Wild Fauna Preser-vation”. Em janeiro de 2020, iniciou a sua atividade no Laboratório INNO como Responsável do Serviço de Microbiologia.

Desde 2021 é também professora assistente convidada da Unidade Curricular Microbiologia Geral e Microbiologia Veterinária no Mestrado Integrado em Medicina Veterinária.

É membro cofundador do grupo de estudantes Griffus-UTAD (2013-2015). Membro da Wildlife Disease Association desde 2018, tendo sido representante por Portugal na Euro-pean Wildlife Disease Association Student Chapter no período de 2018-2020.  Embaixa-dora da Antimicrobial resistance (AMR) Insights Ambassador Network (2021- atualidade). Membro ativo da Ordem dos Médicos Veterinários desde 2017. E, desde março 2021, faz parte da Comissão Científica da INNO. 

No que diz respeito à produção científica, tem publicados mais de 30 artigos em revistas SCI e Scopus, 2 livros e diversos capítulos de livros. Tem cerca de 65 comunicações e posters em reuniões científicas internacionais e nacionais. Tem vários trabalhos em revistas não técnico-científicas e educacionais. Recebeu 5 prémios. Revisou inúmeros manuscritos para diversas revistas científicas e atuou como Editora Assistente no Journal Para-sitology Research. 

Tem formação em ilustração científica de natureza com trabalhos exibidos em exposições nacionais e ibéricas, publicações científicas e uma parceria com CRAS-UTAD (Vila Real) em 2016 na pintura de uma prótese de uma carapaça de um cagado de orelhas-vermelhas (Trachemys scripta).

As suas principais áreas de interesse são: Microbiologia, Micologia, Patologia, Toxicologia, Zoonoses e Doenças Infeciosas. 


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