Scroll to top
Making the difference in animal care.

Infeções do trato urinário em pequenos animais: um estudo retrospetivo das culturas urinárias entre 2017-2019.

04 de Maio, 2022

As infeções do trato urinário (ITU) são comuns em Medicina Veterinária, particularmente em canídeos. O seu diagnóstico é feito com base na história clínica (história de polaquiúria, estrangúria, disúria, hematúria, micção inadequada, ou periuria), exame físico, urianálise e cultura urinária. A cultura microbiológica combinada com os testes de sensibilidade é a melhor ferramenta para o diagnóstico e tratamento das ITU [1–4].

Neste trabalho analisamos os resultados de culturas urinárias admitidas no Laboratório veterinário INNO no período de 2017-2019, de forma a observar como tem evoluído neste período em Portugal a resistência antimicrobiana em bactérias isoladas de infeções do trato urinário de animais de companhia.

De 2017 a 2019 um total de 8274 amostras de urina foram submetidas para exame microbiológico. Destas 5778 tiveram crescimento amicrobiano e as restantes 2465 crescimento microbiano. Das amostras positivas um total de 2611 agentes foram isolados. Das amostras positivas 98% eram culturas puras, e 2% mistas. Os animais com infeção eram na sua maioria machos (56%). A classe de idade mais afetada foi entre 6-11 anos (31,6%), seguido dos animais geriátricos com 11-20 anos (30,6%). Neste estudo o principal agente isolado foi Escherichia coli, com uma prevalência de 47,6% (n=1244). Destas 1,9% (n=24) eram multiresistentes (MRD), 5,1% (n=64) apresentavam resistência a carbapenemes e 1,9%(n=24) eram enterobacteriaceae produtoras de β-lactamase de espectro alargados (ESBL).

Durante o período de 2017-2019, foi possível observar um aumento de resistência a antibióticos da categoria A, apesar de predominar a resistência aos antibióticos da categoria D. O predomínio de resistência a antibióticos da categoria D, era expectável, uma vez que são os antibióticos de primeira linha. Ao longo do período de 3 anos parece existir uma diminuição na percentagem de resitência nas categorias A, D. Na categoria A, é uma tendência que se deve tentar manter, uma vez que nestas duas categorias estão incluídas classes de antibióticos que são importante para medicina humana e alguns cujo uso é proibido em animais [5]Na categoria C parecem ter vindo aumentar a percentagem de resistências o que deve ser visto com preocupação.

O padrão de resistência é semelhante ao que tem sido descrito um pouco por toda a Europa. A baixa percentagem de ESBL e MRD E. coli já foi observada em outros estudos, apesar de já terem sido descritas percentagens mais elevadas na Europa [6,7].

Os resultados observados neste estudo contribuem para a compreensão dos padrões de resistência antimicrobiana ITU na população de animais domésticos em Portugal. A maioria das ITU são tratadas com sucesso com tratamento apropriado, mas infelizmente, devido à presença de bactérias multirresistentes o tratamento pode se prolongar ou ocorrer o risco de infeções recorrentes. Estas bactérias também são responsáveis pela debilidade do sistema imunitário do animal. Nestes animais é necessário identificar as causas associadas à predisposição para esta infeção e as terapias devem ser usadas como prevenção em vez de tratamento [3,4]. As culturas microbiológicas combinadas com os testes de sensibilidade são essenciais para um tratamento eficaz das ITU.


1 - Guardabassi L, Schwarz S, Lloyd DH. Pet animals as reservoirs of antimicrobial-resistant bacteria. J Antimicrob Chemother. 2004;54(2):321–32. 

2 - Magiorakos AP, Srinivasan A, Carey RB, Carmeli Y, Falagas ME, Giske CG, et al. Multidrug-resistant, extensively drug-resistant and pandrug-resistant bacteria: An international expert proposal for interim standard definitions for acquired resistance. Clin Microbiol Infect [Internet]. 2012;18(3):268–81. Available from: http://dx.doi.org/10.1111/j.1469-0691.2011.03570.x 

3 - Weese JS, Blondeau JM, Boothe D, Breitschwerdt EB, Guardabassi L, Hillier A, et al. Antimicrobial use guidelines for treatment of urinary tract disease in dogs and cats: Antimicrobial guidelines working group of the international society for companion animal infectious diseases. Vet Med Int. 2011;2011. 

4 - Bartges JW. Diagnosis of urinary tract infections. Vet Clin North Am - Small Anim Pract. 2004;34(4):923–33. 

5 - Categorisation of antibiotics used in animals promotes responsible use to protect public and animal health | European Medicines Agency [Internet]. [cited 2020 Mar 2]. Available from: https://www.ema.europa.eu/en/news/categorisation-antibiotics-used-animals-promotes-responsible-use-protect-public-animal-health 

6 - Smee N, Loyd K, Grauer GF. UTIs in small animal patients: Part 2: Diagnosis, treatment, and complications. J Am Anim Hosp Assoc. 2013;49(2):83–94. 

7 - Punia M, Kumar A, Charaya G, Kumar T. Pathogens isolated from clinical cases of urinary tract infection in dogs and their antibiogram. Vet World. 2018;11(8):1037–42.


Topics:

  • Microbiologia

Andreia Garcês

A Doutora Andreia Garcês terminou o Mestrado Integrado em Medicina Veterinária pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) em 2016 com a dissertação de mestrado intitulada de “Necropsias em animais Selvagens”. Realizou diversos estágios curriculares em Centros de Recuperação de Animais Selvagens em Espanha e Portugal, Zoos, Laboratórios e Hospitais Veterinários. A sua tese de dissertação foi considerada a melhor tese de Mestrado na área da Patologia Animal pela Sociedade Portuguesa de Patologia Animal (SPPA) em 2016. 

No período de 2016-2017 colaborou em um projeto de investigação do Laboratório de Microbiologia da UTAD sobre o tema “Caracterização genómica e proteómica da resistência a antibióticos em bactérias de morcegos (Tardarida teniotis) e suas implicações ecológicas”, sob a orientação da Profª Drª Patrícia Poeta.

Em 2017, ganhou uma Bolsa de Investigação para Mestres e ingressou no Doutoramento de Ciências Veterinárias na UTAD. A tese de Doutoramento foi defendida em 2020 sob a orientação da Prof. Drª Isabel Pires com o tema “The Impact of Anthropogenic Pressures on the Mortality of Wild Animals in Northern Portugal: A Contribute to Wild Fauna Preser-vation”. Em janeiro de 2020, iniciou a sua atividade no Laboratório INNO como Responsável do Serviço de Microbiologia.

Desde 2021 é também professora assistente convidada da Unidade Curricular Microbiologia Geral e Microbiologia Veterinária no Mestrado Integrado em Medicina Veterinária.

É membro cofundador do grupo de estudantes Griffus-UTAD (2013-2015). Membro da Wildlife Disease Association desde 2018, tendo sido representante por Portugal na Euro-pean Wildlife Disease Association Student Chapter no período de 2018-2020.  Embaixa-dora da Antimicrobial resistance (AMR) Insights Ambassador Network (2021- atualidade). Membro ativo da Ordem dos Médicos Veterinários desde 2017. E, desde março 2021, faz parte da Comissão Científica da INNO. 

No que diz respeito à produção científica, tem publicados mais de 30 artigos em revistas SCI e Scopus, 2 livros e diversos capítulos de livros. Tem cerca de 65 comunicações e posters em reuniões científicas internacionais e nacionais. Tem vários trabalhos em revistas não técnico-científicas e educacionais. Recebeu 5 prémios. Revisou inúmeros manuscritos para diversas revistas científicas e atuou como Editora Assistente no Journal Para-sitology Research. 

Tem formação em ilustração científica de natureza com trabalhos exibidos em exposições nacionais e ibéricas, publicações científicas e uma parceria com CRAS-UTAD (Vila Real) em 2016 na pintura de uma prótese de uma carapaça de um cagado de orelhas-vermelhas (Trachemys scripta).

As suas principais áreas de interesse são: Microbiologia, Micologia, Patologia, Toxicologia, Zoonoses e Doenças Infeciosas. 


Recomendados

Ler mais

Veja também